Amo-te
  • Amo-te
  • 2003 . Porto
  • instalação vídeo 200x200x200cm
  • co-autoria com Mariana Bacelar
  • fotografia de Marta Fernandes da Silva
  • Numa sociedade em que as pessoas vivem da imagem, onde se espera que sejamos modelos fieis de cânones ditados pelos media que invadem involuntariamente os nossos dias, damo-nos conta de que são inúmeras as fugas que encontramos a este impositivo compromisso. Frustração, ansiedade, desejo oprimido, são algumas das palavras-chave que fazem de nós estranhos actores de vidas insólitas paralelas. As relações humanas passam a ser difíceis e, por isso, secundárias. Os sentimentos deslocam-se do plano espiritual para o material. As coisas sobrepõem-se às pessoas. São os objectos que requerem o nosso amor profundo, que nos dão verdadeiro prazer. Amo-te! Quero-te! Embrenhados em fetiches e obsessões, vivemos autênticas comédias humanas, criando nos outros, risos cruéis, sectários e intolerantes. Esses outros alheiam-se, assim, das suas próprias intimidades que, elas próprias, quem sabe, seriam também objecto hilariante. O que aqui propomos é uma situação que crie uma acção reflexiva no público que, possivelmente, pode ver-se, de alguma forma, retratado neste trabalho. Mesmo que o espectador não partilhe da obcecação retratada no filme apresentado nesta instalação, ver-se-á participativo de um outro tipo de insólito fetiche que é a curiosidade.
    Convidamos o público a deitar-se confortavelmente na companhia virtual de uma mulher num acto solitário de amor. Numa sala escura deparamo-nos com uma cama de dossel de pêlo e tule vermelho através do qual podemos perceber uma imagem projectada no tecto da cama. Neste espaço, podemos ouvir uma música que nos proporciona uma certa envolvência e que só se completa quando nos deitamos e aí sim, podemos discernir a projecção das imagens de uma mulher que se deleita a comer mousse de chocolate e rosas vermelhas, devota e apaixonadamente. Ao entrarmos no seu espaço, exploramos a sua intimidade, assaltando os seus segredos como se de um reality-show se tratasse. O público participante vê-se encerrado num autêntico ninho de amor, sob a asfixiante proximidade da projecção-vídeo de uma mulher que não corresponde ao ideal instituído e cujo gesto sensual em nada se assemelha ao de uma playgirl envolta numa ambiência comparável.